As
Mil e Uma Noites ...
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e as coincidências e acasos
são as certezas que nos levam nesta viagem todas as noites
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Estou me entregando ao prazer ocioso de reler As Mil e Uma Noites.
O encantamento começa com o título que, nas palavras de Jorge Luis Borges, é um dos mais belos do mundo.
Segundo ele, a sua beleza particular se deve ao fato de que a palavra mil é,para nós, quase sinônimo de infinito.
"Falar em mil noites é falar em infinitas noites.
E dizer mil e uma noites ...é acrescentar uma além do infinito."
As mil e uma noites são a estória de um amor -um amor que não acaba nunca.
Não existe ali lugar para os versos imortais do Vinícius(tão belos que o próprio Diabo citou em sua polêmica com o Criador) :
"Que não seja eterno, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure..."
Estas são palavras de alguém que já sente o sopro do vento que dentro em pouco apagará a vela:
Declaração de amor que anuncia uma despedida.
Mas é isto que quem ama não aceita.
Mesmo aqueles em quem a chama se apagou
sonham em ouvir de alguém, um dia,
as palavras que Heine escreveu para uma mulher:
"Eu te amarei eternamente e ainda depois."
É preciso que a chama não se apague nunca,
mesmo que a vela vá se consumindo.
A arte de amar
é a arte de não deixar
que a chama se apague.
Não se deve deixar a luz dormir.
É preciso se apressar em acordá -la
(Bachelard).
E, coisa curiosa:
A mesma chama que o vento impetuoso apaga
volta a se acender pela carícia do sopro suave...
As mil e uma noites
são uma estória da luta
entre o vento impetuoso
e o sopro suave.
Ela revela o segredo do amor
que não se apaga nunca.
...Um sultão, descobrindo-se traído pela esposa
a quem amava perdidamente,
toma uma decisão cruel.
Não podia viver
sem o amor de uma mulher.
Mas também não podia suportar
a possibilidade da traição.
Resolve, então, que iria se casar
com as moças mais belas dos seus domínios,
mas depois da primeira noite de amor,
mandaria decapitá-las.
Assim o amor se renovaria a cada dia
em todo o seu vigor de fogo impetuoso,
sem nenhum sopro de infidelidade
que pudesse apagá-lo.
Espalham-se logo, pelo reino,
as notícias das coisas terríveis
que aconteciam no palácio real:
As jovens desapareciam,
logo depois da noite nupcial.
Sherazade, filha do vizir, procura então o seu pai
e lhe anuncia sua espantosa decisão:
Desejava tornar-se esposa do sultão.
O pai, desesperado,
lhe revela o triste destino que a aguardava,
pois ele mesmo era quem cuidava das execuções.
Mas a jovem se mantém irredutível.
A forma como o texto descreve
a jovem Sherazade é reveladora.
Quase nada diz sobre sua beleza.
Faz silêncio total
sobre o seu virtuosismo erótico.
Mas conta que ela lera livros de toda espécie,
que havia memorizado grande quantidade
de poemas e narrativas,
que decorara os provérbios populares
e as sentenças dos filósofos.
E Sherazade se casa com o sultão.
Realizados os atos de amor físico
que acontecem nas noites de núpcias,
quando o fogo do amor carnal
já se esgotara no corpo do esposo,
quando só restava esperar o raiar do dia
para que a jovem fosse sacrificada,
ela começa a falar.
Conta estórias.
Suas palavras penetram
os ouvidos vaginais do sultão.
Suavemente, como música.
O ouvido é feminino,
vazio que espera e acolhe,
que se permite ser penetrado.
A fala é masculina,
algo que cresce e penetra
nos vazios da alma.
Segundo antiqüíssima tradição,
foi assim que o deus humano foi concebido:
Pelo sopro poético do Verbo divino,
penetrando os ouvidos encantados
e acolhedores de uma Virgem.
O corpo é um lugar maravilhoso de delícias.
Mas Sherazade sabia
que todo amor construído
sobre as delícias do corpo
tem vida breve.
A chama se apaga
tão logo o corpo se tenha esvaziado
do seu fogo.
O seu triste destino
é ser decapitado pela madrugada:
Não é eterno, posto que é chama.
E então, quando as chamas dos corpos
já se haviam apagado,
Sherazade sopra suavemente.
Fala...
Erotiza os vazios adormecidos do sultão.
Acorda o mundo mágico da fantasia.
Cada estória contém uma outra,
dentro de si,
infinitamente.
Não há um orgasmo
que ponha fim ao desejo.
E ela lhe parece bela,
como nenhuma outra.
Porque uma pessoa é bela,
não pela beleza dela,
mas pela beleza nossa
que se reflete nela...
Conta a estória que o sultão,
encantado pelas estórias de Sherazade,
foi adiando a execução,
por mil e uma noites,
eternamente
e um dia mais.
Não se trata de uma estória de amor,
entre outras.
É, ao contrário,
a estória do nascimento
e da vida do amor.
O amor vive neste sutil fio de conversação,
balançando-se entre a boca
e o ouvido.
Sônia Braga, ao final do documentário
de celebração dos 60 anos do Tom Jobim,
disse que o Tom era o homem
que toda mulher gostaria de ter.
E explicou:
''Porque ele é masculino e feminino ao mesmo tempo...
'' o segredo do amor é a androgenia:
somos todos, homens e mulheres,
masculinos e femininos
ao mesmo tempo.
É preciso saber ouvir.
Acolher.
Deixar que o outro
entre dentro da gente.
Ouvir em silêncio.
Sem expulsa-lo
por meio de argumentos
e contra-razões.
Nada mais fatal contra o amor
que a resposta rápida.
Alfanje que decapita.
Há pessoas muito velhas
cujos ouvidos ainda são virginais:
nunca foram penetrados.
E é preciso saber falar.
Há certas falas
que são um estupro.
Somente sabem falar
os que sabem fazer silêncio e ouvir.
E, sobretudo,
os que se dedicam à difícil arte
de advinhar:
Advinhar os mundos adormecidos que habitam os vazios do outro.
As mil e uma noites são a estória de cada um.
Em cada um mora um sultão.
Em cada um mora uma Sherazade.
Aqueles que se dedicam à sutil
e deliciosa arte de fazer amor
com a boca e o ouvido
(estes órgãos sexuais que nunca vi mencionados nos tratados de educação sexual...)
Podem ter a esperança
de que as madrugadas
não terminarão com o vento
que apaga a vela,
mas com o sopro
que a faz reacender-se.
by Ruben Alves
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então é isso
moça bonita
nestas nuvens
por onde
coincidências
e sinais
nos levam
através deste portal
de maio
e o ciclo recomeça
mais uma vez
antoniOCarlos
2oo7
:)
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